ENTREVISTA | Constelação Familiar e Sistêmica, com Cecília Costa

A Edição 01 da Ânima Revista recebeu um presente para iniciar a sua seção de entrevistas. Fonte inesgotável de inspiração, Cecília Costa gentilmente retornou por e-mail perguntas sobre Constelação Familiar e Sistêmica. Há quatro anos, ela facilita esse método e atualmente é diretora do Instituto SerMente Livre, que promove diversas atividades com a missão de descobrir, desenvolver e potencializar os talentos de pessoas, instituições e comunidades para co-criar um mundo melhor e mais sustentável.

A Constelação integra as atividades promovidas pelo Instituto e tem contribuído para uma nova maneira de entendermos conflitos consigo mesmo e com o outro, através principalmente da observação do fenômeno. A interface das constelações com uma ciência emergente, características do método, a sua importância para a sociedade atual, experiências da facilitadora, além de outros pontos interessantes, são compartilhados a seguir. 

por Marcílio Ricardo e Ravi Rocha

Em que consiste

o método de Constelação Familiar?

A constelação familiar é uma técnica terapêutica desenvolvida pelo alemão Bert Hellinger há cerca de 40 anos.

Ela permite que a pessoa seja um observador do próprio problema que está vivendo e que o perceba de uma forma sistêmica,

ou seja, levando em consideração seu sistema familiar, profissional e/ou social. Além disso, a pessoa pode perceber seu problema do ponto de vista de outras pessoas que estão envolvidas e não apenas do seu próprio.

Pode nos dar um exemplo prático

de como o processo se desenvolve?

O trabalho pode ser feito individualmente ou em grupo. Para facilitar a compreensão, vou tratar de um caso real de uma Constelação feita em grupo. Um cliente me procurou devido a uma obesidade mórbida causada por uma compulsão alimentar.  Após a entrevista individual (que dura cerca de 20 minutos), o cliente relata ao grupo sucintamente qual é a questão que será trabalhada. No caso, ele disse: “Quero tratar de minha compulsão alimentar”. Pedi ao cliente que escolhesse alguém no grupo para representá-lo e alguém para representar a compulsão alimentar e que posicionasse ambos os representantes. Ele os colocou um de frente ao outro. Então o cliente volta a sentar-se e apenas observa o que acontece com os representantes. O processo dura em torno de 1 hora. Neste caso específico eu introduzi mais uma pessoa para representar os ancestrais que vieram fugidos da guerra. Imediatamente o representante do ancestral disse que sentia suas bochechas encolhendo. Ele olha para o representante da compulsão, diz a ele que está muito grato, que graças à compulsão eles conseguiram resistir ao tempo de falta de comida e puderam comer qualquer coisa que foi possível, de modo que conseguiram sobreviver. Outros diálogos acontecem, mas por fim, o ancestral diz ao representante do cliente que agora a compulsão não é mais necessária. Que ele está livre para comer apenas o necessário para cada dia. Que os tempos difíceis passaram! Então o representante da compulsão sente que não tem mais nada a fazer ali e se afasta. O ancestral diz estar feliz por saber que seus descendentes estão bem e que os negócios prosperaram (até hoje a principal atividade econômica da família do cliente é a venda de alimentos iniciada pelos ancestrais que chegaram ao Brasil). O cliente assume então o seu próprio lugar na constelação e agora olha para uma nova pessoa que representa o seu futuro. Então, o cliente diz ao futuro todos os planos que ele planeja realizar na sua nova vida. Assim terminou esta constelação familiar.

Como a ciência e a intuição

convergem na Terapia de Constelação?

Elas convergem porque o facilitador está aplicando um método de observação fenomenológica, também chamado de observação Goethianística. Nesse método,

o fenômeno é observado sem nenhum pré-conceito, sem julgamento, sem uma intenção do observador de chegar a algum resultado.

Quando esse tipo de observação é feita a intuição se manifesta, ou seja, algo por trás do fenômeno pode ser captado pelo facilitador. Mas note que a ciência a que eu me refiro aqui é a emergente ciência holística que também usa da observação fenomenológica como método. Na ciência convencional, o método científico só permite que se manifeste os fenômenos físicos, da matéria densa (captada por nossos olhos ou nossos aparelhos). Isso ocorre, dentre outras coisas, porque o método científico depende de uma hipótese, ou seja, há uma intenção de se chegar a um resultado, há um pré-conceito e julgamento sobre o fenômeno e, esses fatores, impossibilitam a apreensão de uma realidade mais sutil. Há várias camadas de realidade, desde a matéria densa até a mais sutil, desde o macro até o micro. Em termos de ciência convencional, são os físicos quem tem aprofundado cada vez mais nestas várias versões da realidade que, muitas vezes, são paradoxais.

Por que métodos que não tem o objetivo principal

de explicar o fenômeno, como a Constelação Familiar,

são tão importantes para nossa sociedade atual?

O método da Constelação Familiar foca no processo e não no resultado e nem em explicar porque o fenômeno ocorre.

Quando você está aberto a aceitar o fenômeno tal qual ele se manifesta, algo muda, alguma tensão se desfaz e o amor volta a fluir naquele sistema familiar, tornando-o mais leve e harmonioso para todos os seus membros.

É nesse sentido que um método como este é tão importante para a sociedade atual. Ele substitui acusações ao outro por compaixão, ele coloca para dentro de nós o que normalmente só enxergamos como estando fora de nós, ele inclui aquilo que nós como sociedade ou indivíduos temos excluído. Ao fazer isso, o método abre uma possibilidade real de cura, mas é preciso lembrar que a cura também não é o foco, ela pode vir a ser uma consequência, mas o foco é única e exclusivamente observar e aceitar o fenômeno tal qual ele se manifesta.

Há possibilidade

de se constelar outros núcleos sociais além da família,

por exemplo instituições, conselhos e bairros?

foto: Azul Acosta
foto: Azul Acosta

Sim, é possível. Nestes 40 anos de Constelação Familiar ela foi ganhando uma ampliação. O fenômeno que inicialmente era tratado apenas no contexto familiar foi expandido. É por isso que atualmente o melhor termo é Constelação Sistêmica, o qual abarca a Constelação Familiar, a Constelação Organizacional (com foco no ambiente de trabalho), além de outras possibilidades que estão sendo experimentadas. Na Inglaterra, por exemplo, a terapeuta Jenny Mackewn abre Constelações Ecológicas, onde as pessoas podem representar a água, o ar, a indústria, as espécies animais e vegetais afetadas. Esse é um sistema muito mais amplo do que o da família do cliente, por isso, nesse caso, a constelação é muito mais um instrumento para permitir a compreensão do problema de vários pontos de vista, creio que seu poder de cura nesse âmbito seja mais limitado.

Qual o sentido de “alma”

para a Constelação Familiar e, consequentemente, para o seu papel como facilitadora?

Como disse antes, à medida que a constelação foi se desenvolvendo enquanto técnica terapêutica, os sistemas tratados foram sendo ampliados de modo que o termo Constelação Sistêmica passou a ser mais apropriado. Entretanto, Bert Hellinger também percebeu que em algumas constelações apareciam fatos que iam além do contexto do sistema familiar, organizacional ou social do cliente. Eles faziam parte da trajetória de uma jornada maior que transcende os fatos apenas dessa vida. Nesse sentido, ampliando ainda mais o termo Constelação Sistêmica, Bert Hellinger passou a chamá-lo de Constelação da Alma. No entanto, percebo que esse termo também é válido mesmo para as constelações mais corriqueiras, pois, o termo Alma vem do latim animu, que significa “o que anima, que dá vida”. Em nossa linguagem cotidiana, nós às vezes usamos esse termo de forma ainda mais ampla quando perguntamos “qual a alma do negócio?”, ou seja, “o que dá vida a esse negócio? O que permite que ele exista?”

Em uma constelação se pode vivenciar plenamente essa alma não só das pessoas que estão sendo representadas, mas também dos objetos ou sentimentos.

O representante traz informações e sentimentos daquilo que ele está representando, ainda que sejam objetos que consideramos inanimados, como por exemplo, o dinheiro ou uma casa.

E nesse sentido o que significa

facilitar o processo? Qual é o seu papel?

O meu papel é observar o fenômeno de forma aberta, estando de acordo com qualquer fato que ali se manifeste, sem julgamento. E é nesse estado que minha intuição pode se manifestar e eu posso interferir no sistema adicionando novas pessoas ou objetos que precisam ser incluídos na constelação ou trazendo frases que precisam ser ditas pelos representantes, de modo que o amor possa ser desbloqueado em algum ponto e volte a fluir no sistema.

Você tem recebido o retorno

de participantes após um encontro de constelação?

O que eles têm dito, no geral?

Antes de responder quero fazer uma observação: há uma outra diferença do método da observação fenomenológica em relação ao método científico convencional. Como o foco da 1ª não é o resultado, também não se busca mensurá-lo. É como se ao mensurá-lo tivesse interferindo no próprio resultado, pois ao mensurar você cria um foco no resultado. Então eu não procuro os meus clientes para saber quais foram os desdobramentos da Constelação Familiar. Como esse trabalho é feito em um único encontro, muitas vezes eu não vejo mais o cliente. Mas, quando os encontro ocasionalmente ou quando ouço comentários de pessoas que constelaram com outras pessoas, são sempre comentários no sentido de dizer que a Constelação mudou profundamente a forma dele perceber o problema e que muito rapidamente a questão se resolveu.

Ao longo de toda a sua experiência nesses caminhos

que se aprofundam na essência da vida e dos seres,

qual foi a revelação mais profunda que você já teve sobre os seres humanos?

O que nos une?

A revelação maior talvez seja a constatação de que

em um nível mais profundo não existe nem certo e nem errado, existem situações que nos conduzem muitas vezes ao sofrimento, mas o sentido maior é sempre de aprendizado, de aprimoramento, de evolução.

E o que significa isso? Nesse sentido aprimorar-se é sempre se tornar mais amoroso, compassivo, incluir no seu coração o que quer que seja, compreender que somos todos células de um sistema maior e que o todo cuida para que estejamos bem e que nós também podemos fazer o nosso melhor para o bem do todo.

Que mensagem

você gostaria de deixar para quem está te lendo neste momento?

Que você possa encontrar-se plenamente com sua essência para poder assumir com propriedade o seu lugar nessa imensa rede da vida. Que você possa contribuir com o seu melhor, possa aperfeiçoar-se sempre, confiar na sua intuição e no seu destino e sentir que também é cuidado e amado pelo todo.


Cecília Costa | diretora do Instituto SerMente Livre, onde facilita cursos de autodesenvolvimento e terapia em Constelação Familiar e Sistêmica. É sócio-fundadora da Ecovila Aldeia e professora adjunta da UFPE (atualmente em licença sabática), onde coordenou as disciplinas de Ecologia, de Política e Gestão do Meio-Ambiente e Lógica e Crítica ao método científico, e criou e coordenou as disciplinas de Ecopedagogia e Ciência Holística. Possui graduação em Ciências Biológicas pela UFMG , mestrado e doutorado em Ecologia pela UNICAMP, tendo ainda formação complementar em Constelação Familiar e Sistêmica (Hellinger-Institut Landshut), Pedagogia Waldorf, Educação Gaia: Design em Sustentabilidade, Ecologia Profunda, e Alfabetização Ecológica (Schumacher College, UK).

*ceciliapacosta@gmail.com

Azul Acosta |  recifense, graduado em fotografia pela AESO Barros Melo em 2015. Desenvolve o seu olhar com sensibilidade, atuando como freelance desde 2013. Apaixonado pela natureza e pela luz natural, busca extrair o que de melhor ela pode ofertar em suas imagens, produzindo imagens que une pessoas com a beleza da natureza. www.facebook.com/azulacostafotografia