PANORAMA | O Chamado, por Gustavo Prudente

 Sentia sua pele áspera, como se já não fosse capaz de sentir muito. Havia tentado as drogas. As terapias. Os rituais de cura. Havia se jogado dos céus, mergulhado com os tubarões, escalado vulcões. Já fora executivo de sucesso e artista de rua. Mas a pele havia ficado áspera, em vez de sentir, cada vez mais vibrante, a vida.

“Onde está o arrepio que me faz eu?”,

pensava. Cansado das experimentações, arrumou sua mochila e caminhou por uma trilha que diziam ser sagrada, por duas semanas. Num certo dia, sentado numa pedra, enquanto pensava sobre sua história, rabiscou na terra com um graveto algumas palavras: força, propósito, conexão.

Olhou longa e profundamente para aquelas palavras e deixou que a mente passeasse pelos momentos belos e tristes que havia tecido ao longo de sua jornada. Todos, de alguma forma, dançavam em torno daquelas palavras; ou porque elas haviam brilhado através do que estava vivendo, ou porque a dor de não as ver presentes o dilacerava. “Talvez essas palavras estejam me sussurrando qual é o meu chamado de vida”.

Continuou a trilha, meditando sobre as palavras e, acima de tudo, sentindo-as em seu corpo. Onde mora a força em mim? De que lugar de meu corpo nasce o propósito? Onde está a fonte interna da minha conexão? À medida que mergulhava dentro e caminhava e suava fora, a grossa pele foi ficando fina. Sentia pequenos arrepios que se acumulavam e se intensificavam, enquanto as palavras dançantes tomavam forma numa frase: “Meu propósito de vida é nos ajudar a conectar com a força de nosso propósito”.

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Foto: Azul Acosta

Repetiu essa frase centenas de vezes durante a caminhada e quando chegou em seu pouso, sentiu que o banho retirava qualquer dúvida ou ruído que se interpunha entre ele e seu propósito; e dormiu com a frase afundando em sua mente, como um mantra. Acordou em silêncio dentro, embalado pela música da natureza ao seu redor.

Quando retomou os passos, o corpo se emocionava com cada ser – animal, planta ou humano – que encontrava.

Cada ser, e cada momento, transpareciam como oportunidades para que a sua essência se manifestasse.

Percebeu que estava a vida inteira tentando ser algo – executivo, artista, drogado, espiritualista – mas que o que realmente o conectava com sua fonte interna de felicidade não era ser ou fazer algo, e sim deixar que tudo fosse canal para a expressão do seu propósito.

O êxtase abundante de ser o seu chamado encheu sua mente de novos rumos para sua vida. Ao voltar, conectou tudo o que já fez com o que ainda queria fazer, e criou e recriou seu trabalho, suas amizades, seus amores e sua vida espiritual. A vida começou a se organizar para que o arrepio em seu corpo desabrochasse poderosamente na flor que sempre buscara ser e mais pessoas se achegaram, conectadas com seu propósito. Sentia-se, agora, em família. Uma família abundante que, além de boas conversas e experiências, convidou-o para projetos entusiasmantes e prósperos.

Deu-se conta, no fim, de que tudo havia trabalhado a seu favor. Suas conquistas deram-lhe as respostas que precisava sobre como conectar com a força do propósito, e o tornaram confiante.

Suas derrotas trouxeram-lhe boas perguntas para continuar investigando e evoluindo

e talharam nele a humildade e a empatia. Agora, fosse como executivo, artista, xamã ou esportista, sabia usar esses dons para ajudar a si e aos outros a alcançar a mesma descoberta à qual chegou naquele dia, enquanto rabiscava palavras com um graveto.

Com o coração e a pele sensíveis à vibração da vida

e os olhos abertos ao que realmente lhe importava, sentia-se, agora, verdadeiramente feliz.

Foto: Azul Acosta
Foto: Azul Acosta

***

Anos depois, em seus últimos momentos, escreveu esse texto e, olhando pelos olhos das palavras, bem nos olhos de quem as lia, perguntou: “E você, para quem chegou, pela sincronicidade da vida, essa história: qual é o seu propósito de vida?”.


Gustavo Prudente | seu propósito é contribuir para a liderança do coração e a cultura sustentável no planeta. Para isso, escreve textos, oferece consultoria, cursos e coaching – inclusive para ajudar mais pessoas a viver seus propósitos de vida. Saiba mais em http://gustavoprudente.blogspot.com

Azul Acosta |  recifense, graduado em fotografia pela AESO Barros Melo em 2015. Desenvolve o seu olhar com sensibilidade, atuando como freelance desde 2013. Apaixonado pela natureza e pela luz natural, busca extrair o que de melhor ela pode ofertar em suas imagens, produzindo imagens que une pessoas com a beleza da natureza. https://www.facebook.com/azulacostafotografia