PANORAMA | Trançado Está, por Patrícia Anette

Alguém já esquecido escreveu sobre isso… não, não foi algo que li: foi um sonho que tive. Certo, vou então escrever.

Em Itanhaém, litoral sul paulista, me explodiu o coração, tive que buscar diagnósticos e para isso fui arrastada pelas calçadas. Não, não era eu: entre aspas algo como as calçadas me caminhavam. Me ca mi nha vam. Já não me lembro bem, tiro as aspas e parafraseio. Enfim, me dirigi ao hospital e expliquei a situação que, pressuponho, não acontece a todo mundo: de tanto amar, explodiu-me o coração. Cada um tem o diagnóstico que merece: soluções mnemônicas, dissoluções mnemônicas, compressas, contrastes, xaropes e antiinflamatórios costuraram os acontecimentos que nadam meu dia. Passei tanto “nada” que até quis ter baratas em casa, lagartixas ou pererecas – um susto qualquer entre tijolos e pixels. Meu joelho está exposto e uma mosca passeia por ele desde 2005, mas não é suficiente: queria ver desfilar uma marcha de animais sobre a minha pele. Em sonho, me aparecem pomba, gato e cobra e às vezes consigo conversar com eles sem interrupção ou distanciamento.

Não dessa vez. Um pombo laranja se debate entre minha cama e o criado mudo; mas dessa vez não sei o que fazer. Entra então um gato cinza com ganas de matá-lo. Me regozijo e me aflijo. Tento a todo custo acordar para acabar a agonia da luta entre pombo e gato, mas estou presa no sonho… Saio então ao quintal à procura de um pau pra espantar os bichos agoniados do meu quarto, e ao invés disso encontro uma cobra verde enrolada na horta. É cobra do mato, viva e deixe viver. Deixo a casa para ir até o fim da rua e ali ter com as árvores que geralmente me acalmam, mas as encontro completamente podadas, quase órfãs. As árvores velhas: todas já perderam seus pais, mas nem por isso temos pena delas ou as chamamos de órfãs; apenas as esquecemos, as deixamos de lado, as amontoamos em madeireiras, ferros-velhos, lojas de materiais de demolição, hospitais geriátricos e cemitérios. Sento-me um pouco ao lado delas – demorarão quanto tempo pra florescer de novo os galhos recentemente podados? Quererão companhia? Sentirão cansaço? A ver. Vou morar aqui um pouquinho e deixar a minha casa definitivamente pros animais que a habitam.

Sentada ao seu lado, observo as árvores durante sete anos e finalmente entendo um padrão que dá sentido à minha vida. Dizem elas: “Fia mia, a melhor coisa da vida é amar alguém. A segunda melhor coisa da vida é deixar de amar alguém”. Me disseram isso, mas não com essas palavras, que fui eu que apelidei com essa legenda a imagem acompanhada durante esses anos, todos os dias, e que agora conto a vocês: os galhos de uma árvore muitas vezes se entrelaçam como dedos das duas mãos de uma só pessoa em oração. Esse gesto – trançar seus próprios dedos para rezar – é em sua origem um gesto das árvores. Há aí um aprendizado: para rezar, só precisamos de nós mesmos, nem de deus a gente precisa. A maior consequência de se trançar a si mesmo, a vemos também na botânica: às vezes, quando muitos anos se passaram desde a primeira trança de folhas e galhos de uma mesma árvore, é possível dizer que nem o mais violento dos ventos vindos do sul a poderiam a vera desfazer.

Pronto, escrito está.

foto: Juliana Rogge
foto: Juliana Rogge

Patrícia Anette | gosta de contar e ouvir histórias. Acredita nas pessoas e nas trocas voluntárias e comunitárias (tradução: participa/participou de movimentos cívicos e apartidários como o Movimento Voto Consciente e o Cineclube Consciência, em Jundiaí; a Revista Cisma, em São Paulo; e a Ocupa Obarco, em Florianópolis).

Juliana Rogge | estudante de Cinema, adora viajar e tomar um chá.  É amante de gatos, vegetariana, apaixonada por meditação e tantas outras práticas holísticas.  Escreve sempre que pode e segue deixando os momentos fluírem através da fotografia.