PANORAMA | Dinâmicas da Alma, por Renato Kress

O Globo brilhante e ardente, com a forma de um olho do Deus Criador, dispara

uma língua de chama sobre a escura esfera caótica, desencadeando a criação

do céu e da terra e inflamando os corações de humanidade nos modestos

pedaços de barro, cada alma uma centelha surgida do grande fogo

vivo. (ARAS[i], 5dk 199)

ALMA. Falar sobre a alma é falar sobre a amplitude avassaladora das possibilidades do significado dessa palavra. Pensar a dinâmica da alma é pensar em expressões como “fulano era uma boa alma”, “ele é um desalmado!”, “ela canta com a alma”, “você está desanimado hoje!”, “vi uma alma do outro mundo!” e possíveis infinitos exemplos da alma como fantasma, índole ou caráter, como sentimento, generosidade, coragem, ânimo, veemência, entusiasmo, arrebatamento, expressão, animação ou mesmo como vida.

A alma é tudo isso ou é o que anima a cada um desses processos? Como na música de Gonzaguinha sobre a vida, acredito que teremos tantas versões para a alma quantas almas para dar suas versões. Falar sobre ela é tocar o tema do princípio da vida, sobre a imortalidade (da alma) e da temporalidade do corpo, a moral, a religião e a metafísica (Alma Mater). Um panorama da alma talvez incluísse toda a história da vida humana na Terra. E o que fazer quando o assunto que se quer abordar é mais amplo do que o tempo e o espaço que se tem? Recorre-se ao símbolo. Esse foi o caminho natural das culturas tradicionais ao longo de toda a história.

O raciocínio simbólico é como opera o nosso inconsciente, ao contrário do raciocínio cartesiano, matemático, dito “científico”, que é como opera a nossa consciência.

E a alma é algo que extravasa a nossa capacidade cognitiva, sobre ela só falamos em metáforas.

O símbolo congrega mais significados do que qualquer texto corrido poderia congregar. Talvez toda a Barsa não fosse suficiente para expor a carga de significados inerentes à imagem de uma cruz. Ela é anterior a Cristo e engloba a encruzilhada, os quatro elementos, os pontos cardeais etc. Então a melhor forma de animar este texto, de dotá-lo de vida e intensidade e significado, será brincar um dos simbolismos mais comuns para a alma: o simbolismo dinâmico da faísca, da centelha.

foto: Clarissa Dutra
foto: Clarissa Dutra

A alma como Centelha

A palavra inglesa para centelha, spark, atesta a sua característica fértil, espermática, sua essência vital. Em grego spargan significa brotar, proliferar, abundar, irromper ou jorrar, relaciona-se ao rebento e ao ato de germinar de uma planta. Em latim, spargere é disseminar ou espalhar, como as sementes de ânimo podem ser semeadas na escuridão da estagnação.

Uma centelha é uma partícula incandescente que um fogo liberta ou que dele resta, e a mais insignificante delas pode transbordar de vida novamente, lambendo e – como nos coloca o ideograma Li, o fogo do I-Ching [ii] – transformar tudo ao seu redor em um substrato da sua reação e da sua natureza, como uma paixão incendeia nossa visão de mundo. Representa o potencial incendiário das ideias, que podem plantar a semente para uma nova invenção, descoberta científica ou criação artística, bem como desencadear uma poderosa revolução, suficiente para reconfigurar a ordem mundial. Centelhas voam quando cargas elétricas opostas se juntam ou se opõem, quando paixões de inflamam entre duas pessoas, em amor ou cólera. Alma é dínamis, é movimento e mutação, é aprendizado, inquietude, impermanência e desejo.

Nos textos alquímicos encontramos o termo “scintilla”, que nos contava a história de inúmeras centelhas infinitesimais, ou delicadamente fundidas na profundeza das águas. Quando acessadas, essas centelhas brilhavam no escuro como olhos de peixes e, quando reunidas – numa jornada que implicava uma sucessão de mortes e renascimentos simbólicos – formavam o ouro alquímico.

Jung [iii] acreditava que esses processos tinham correspondência nas suas observações clínicas de múltiplos centros da psique (complexos). As narrativas míticas, como a narrativa alquímica, nos mostrava como o ser humano pode tornar-se consciente da – ou reunir toda a –substância luminosa da personalidadev (alma), extraída de projeções da persona [iv], da sombra [v] e de outros complexos que formamos.

Esse coletar de potencialidades da alma é o processo vivo de estar no mundo, de perceber-se e aprender sobre si mesmo através de suas relações e interações com o outro, através da maturação antropológica que engloba o convívio com a diferença, com o diferente, como não-eu, num fluxo natural de expansão e aprendizado que aparece como o desejo de “traição à tradição” que é a natureza da alma na Cabala segundo Nilton Bonder [vi]. A alma deseja seu oposto, que a carrega de intensidade e potência para que ela busque eternamente por novos horizontes. O preconceito, assim, é uma derrota da alma tanto quanto a curiosidade e o desejo de expansão, suas línguas oficiais.

Como anda sua alma?

Bem vindos à Ânima Revista.

Vestido de Rio - por Clarissa Dutra 2
foto: Clarissa Dutra

Renato Kress | antropólogo e cientista político, especialista em psicologia analítica e coach. Apaixonado por todas as linguagens simbólicas, religiões e sistemas de crenças, fenômenos de massa, filosofia, artes, fotografia e café. Autor do ensaio Consciência (Garamond, 2000), da revista Consciencia.net.

Clarissa Dutra | fotógrafa e produtora cultural. O ensaio “Vestido de Rio” é uma releitura visual do poema “Misticismo” de Ascenso Ferreira (1895-1965), poeta natural de Palmares/PE. Um trabalho com essência Pernambucana, mas que dialoga com sentimentos e sensações universais.

Notas do autor:

[i] An Encyclopedia os Archetypal Symbolism
[ii] I-Ching: pode ser compreendido e estudado tanto como um oráculo quanto como um livro de sabedoria. Na própria China, é alvo do estudo diferenciado realizado por religiosos, eruditos e praticantes da filosofia de vida taoísta.
[iii] Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicólogo suíço, criador da Psicologia Analítica.
[iv] Persona: Persona significa máscara. A palavra vem do teatro grego, onde cada personagem utilizava uma máscara para construir seu personagem. A palavra personagem, por sua vez, surgiu da palavra persona. Em latim, per-sona que dizer através do som. A persona é como se fosse um papel para interpretarmos a fim de sermos vistos e aceitos pelos outros. Serve como um filtro social para o nosso ego.
[v] Sombra: A sombra é formada desde a infância quando estamos aprendendo o que é bom e o mal. Quando o mal aparece temos que esconder, pois somos colocados de castigo ou ouviremos um sermão… então não podemos ser nós mesmos, e sim ser aquilo que querem que sejamos. São aqueles desejos reprimidos ou o que passou despercebido e não desenvolvemos. Tudo aquilo não gostaríamos de ser, mas especialmente aquilo que odiamos. É como se fosse um saco em que você guarda tudo o que não pode soltar senão a sociedade não irá te aceitar.
[vi] Em sua obra magistral “A Alma Imoral”